Nesse segundo relato que venho a desenvolver, gostaria de me prender a uma temática que me chama atenção já faz algum tempo, que fica além de uma questão específica do campo de jogo, talvez muito mais um fator cultural, que é o nosso pseudo-bairrismo quando falamos de atletas e comissões técnicas.
Culturalmente se prega que o futebol gaúcho tem peculiaridades diferentes de outros estados sobre o modelo de jogo e dinâmica, mas principalmente na entrega e doação física/mental nos jogos. Temos por costume dizer que o atleta tem de “suar sangue” por essas bandas, que uma bola dividida é empolgante e que uma chegada mais ríspida faz parte do nosso contexto histórico.
Particularmente não discordo que por termos uma influência da bacia do prata, somos formados para dar um pouco mais, ou deixar tudo dentro do campo. Mas o que me faz pensar, é até onde essa cultura é verdadeira, até onde os resultados práticos de campo estão relacionados somente a esse modelo de pensamento. Existe uma resistência muito grande para a “importação” de atletas de outros estados, principalmente atletas que vem das regiões norte e nordeste ou do Rio de Janeiro. Por um certo tempo se falou que esses atletas não se adaptariam ao frio dos pampas (onde realmente existe uma dificuldade de adaptação), outros afirmam que não conseguem desenvolver seu futebol pois não tem por prática exercer uma marcação forte e uma doação necessária para tal, e ainda existe uma corrente que defende que temos atletas de mais qualidade por aqui mesmo, não havendo necessidade de se buscar fora.
Tive a felicidade de trabalhar em estados como SC, MA, MT, GO, PA, AC e AM, estados com diferentes culturas regionais e com uma diversidade de pensamentos sobre a aplicação do futebol. Certamente não são estados que tenham equipes de referência no cenário nacional, até já tiveram, mas por questões muito mais geográficas ou de evolução política, acabaram ficando num segundo plano. São praças esportivas que atraem torcidas apaixonadas, que lotam estádios, que movimentam muito capital e conseqüentemente formam muitos bons profissionais.
Como em qualquer profissão, temos profissionais bons e ruins, e felizmente isso não é algo que se carrega no DNA ou no registro de nascimento. Afirmo isso, pois tive o prazer de conhecer Jornalistas, Médicos, Arquitetos, Administradores e Autoridades Políticas de grande capacidade e notoriedade no cenário nacional. Personalidades essas nascidas e com formação em diversas regiões do país. Dessa maneira se consegue perceber que existem pessoas capacitadas em todos os lugares, só quem já atravessou o país percebe o tamanho da extensão territorial do Brasil, e seria no mínimo ingenuidade se achar que podemos estar acima do bem e do mal, ou que só por essas bandas falamos com propriedade.
Assim acontece com os profissionais do futebol, onde cria-se uma bolha em torno do Rio Grande do Sul, um pré-conceito em relação ao mercado externo (Pelo menos no interior). Essa barreira não inviabiliza que apenas profissionais de fora não entrem em nosso mercado, mas como em qualquer coisa na vida, estamos numa via de mão dupla, onde também existe uma restrição e uma dificuldade de profissionais daqui entrarem em outros centros, e vejam bem, não me refiro as exceções, mas em regra geral.
Fazendo uma exercício de raciocínio, imaginem se atletas de fora do estado, fossem um indicativo de que não se conseguiria atingir os melhores resultados, nossa dupla Gre-Nal não seria campeã nunca. Certamente as equipes formadas por crias da terra levariam vantagem absoluta. Se buscarmos as equipes do Internacional de Porto Alegre na última década, do Grêmio na década de 90, quantos ídolos de fora se fortaleceram aqui, sendo fundamentais para diversas conquistas, e não só atletas, mas Técnicos e Preparadores Físicos.
Quando se sai daqui para estados distantes, também sofremos desse mal, também somos questionados, e existe um bairrismo natural para que se aposte em profissionais locais, e não estou aqui para criar nenhuma ilusão sobre o tema proposto, mas apenas lembrar que não estamos sós, e que a qualidade tem de ser o maior indicativo para qualquer avaliação.
Poucos lugares vi atletas de tamanha qualidade técnica individual, como nos estados da região Norte/Nordeste, até acredito que seja por uma influência muito mais sócio-econômica do que por uma formação atlética mais refinada. São lugares onde ainda existem campos amadores, campos de terra, onde talvez a internet não seja absoluta, onde o futebol ainda seja mais puro. E aqui faço uma crítica aberta com as categorias de base, ou melhor, para com alguns modelos de gestão sobre categoria de base, onde a instabilidade de comissões técnicas e a dependência de resultados já chegou, conseqüentemente havendo uma inversão de valores no processo de formação, sendo mais importante o resultado de campo, o resultado coletivo, do que a formação específica do Atleta. Competitividade, coletividade são quesitos que devem ser incentivados na formação, acredito serem fundamentais na formação de um atleta e cidadão completo, mas o refinamento técnico, o incentivo a criatividade tem de serem valorizados.
Mesmo sem ter números concretos para afirmar, tenho convicção que o Norte/Nordeste devem ser as regiões que mais importam atletas para fora do país. Estados que não tem equipes na série A ou B do campeonato Brasileiro. Esses locais acabam oferecendo mais chances para equipes menores disputarem competições como Copa do Brasil, Campeonatos Brasileiros de divisões menores e principalmente criando uma atmosfera de estádios e impressa muito atuantes, reproduzindo uma pressão (guardada as proporções) e exigências que os grandes clubes sofrem em outros grandes centros. Através dessas situações citadas os atletas que atuam e crescem acostumados a disputar finais de estaduais, realizarem jogos por competições nacionais, acabam tendo um preparo natural para enfrentarem condições de pressão e cobrança, diferente da maioria dos atletas formados no interior Gaúcho, onde muitos passam uma vida esportiva sem disputar uma competição nacional. Isso atinge também as equipes de base dessas regiões, onde freqüentemente são convidadas a participar de competições nacionais, como por exemplo a Taça São Paulo de futebol Junior, competição essa que esta muito distante das bases de equipes de nosso interior.
De maneira geral, nossas raízes culturais são a fonte de nossa energia e a base de nossa personalidade, fazendo realmente com que tenhamos acima de tudo nosso orgulho próprio e um ímpeto pouco comum. Mas não podemos usar nossas raízes como desculpa para justificar algumas atitudes de pré-conceito, atitudes essas que nunca fizeram parte do caráter e das lutas que se travaram nessa terra. O mercado é competitivo e lugar para os valentes, para os que têm coragem de quebrar paradigmas, para os que não se detém a conceitos pouco justificáveis. Eu sou do Sul, mas antes disso sou Gaúcho.
Tiago Nunes
Técnico de Futebol
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